Visão

May 7, 2008

Um estudo científico com camundongos, que normalmente têm receptores visuais apenas para azul e verde, demonstrou ser possível os fazer ver também o vermelho, tornando sua visão de cores equivalente à humana, por meio da mera inserção de um gene humano. Isso mostra que um gene sozinho é capaz de alterar a percepção de cores, sem precisar de uma evolução cerebral – a mudança de percepção de cores foi praticamente instantânea, mostrando a flexibilidade do cérebro.

A visão humana se dá por meio do aparelho visual humano, que inclue os olhos e o processamento cerebral da visão. A qualidade dessa visão é principalmente devida aos olhos em si, isto é, não tanto ao processamento cerebral. Há animais de cérebro menor que o nosso e de visão superior.

A qualidade da visão abrange aspectos como precisão e resolução (o quanto se pode enxergar detalhes e coisas distantes), campo de visão periférica (o quanto se pode ver coisas ao seu redor ou só à sua frente – no caso dos humanos, 120 graus), percepção de movimento (o quanto uma mudança no campo visual chama a atenção), percepção de profundidade (o quão bem os olhos avaliam a distância em 3D) e percepção de cores (a visão humana percebe uma faixa de comprimento de onda de mais ou menos 400 a 700 nm, no espectro de cores).

Quanto a cores, há variabilidade entre pessoas, determinada geneticamente. Normalmente as pessoas têm nos olhos 3 receptores de cor, chamados cones, correspondentes a azul, verde e vermelho, com leve variação individual na tonalidade captada por esses receptores. Algumas pessoas, no entanto, têm 4 receptores, e conseguem uma visão superior de cores. Esse receptor extra é dado por um gene que só se manifesta em mulheres, muito raramente, e é inativo nos homens portadores (provavelmente está no cromossomo X, exigindo duas cópias para se manifestar, suposição minha). Essas mulheres com 4 receptores conseguem distinguir melhor entre tonalidades de cores e provavelmente têm uma experiência subjetiva de visão mais rica, e inexplicável para humanos normais.

Há também uma quantidade significativa de pessoas com visão de cores diminuída, predominantemente homens. Há pessoas com apenas 2 receptores de cores, que enxergam, por exemplo, apenas tons de vermelho e verde, e há ainda algumas pessoas com visão sem distinção de cor, como em preto e branco. A maior ou menor quantidade de receptores de cor é determinada geneticamente, pelos genes dos pais.

Comparada à dos animais, a nossa visão é talvez intermediária. Há muitos animais com visão superior, seja em um aspecto ou em outro. A águia tem uma visão de precisão e resolução maior, conseguindo enxergar melhor coisas distantes e detalhes do que nós, mesmo com um cérebro relativamente pequeno. Provavelmente a qualidade da visão de cada animal é resultado das exigências evolutivas, e se essas exigências não foram rígidas o bastante no caso dos humanos, é compreensível que a nossa visão não tenha se tornado tão boa.

Há um animal, no entanto, para o qual as pressões evolutivas para a visão parecem ter sido especialmente fortes. A tamarutaca (mantis shrimp, foto) é um bixo semelhante a uma lagosta, que vive no fundo do oceano e tem um corpo de mais ou menos 30cm.

Enquanto que os humanos têm normalmente 3 receptores para visão colorida, ela tem 12 ou mais receptores, algumas espécies chegando a 16, conferindo uma visão hiper-espectral, incluindo infravermelho e ultra-violeta, passando por tonalidades inimagináveis. Enquanto nós temos uma percepção de profundidade binocular numa faixa estreita à nossa frente, a tamarutaca tem visão trinocular que percebe toda a sua circunferência. Seus olhos são considerados os mais complexos do reino animal.

É provável que, devido ao tamanho do seu cérebro, a tamarutaca não tenha consciência, isto é, seja um mero robô natural, e não possa conscientemente apreciar toda a sua riqueza visual. Talvez algum dia pós humanos possam descobrir como é a sua visão. Dado um criador inteligente, pós humanos poderiam ter uma visão ainda superior à da tamarutaca (mantis shrimp), e talvez então a nossa experiência sensorial de agora seja como um filme em preto e branco em comparação.

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10 Comments Add your own

  • 1. Diego  |  May 7, 2008 at 5:13 am

    Maravilhoso (em particular visualmente) o tal camarãozinho

    Critico apenas a colocação de nossa visão como intermediária. A unidade mínima de luz, na física é o fóton. Nosso sistema nervoso é tão poderoso que a retina do olho possui receptores que podem ser ativados com apenas 1 fóton. Não só isso, como essa informação consegue gerar uma reação em cadeia que chega ao falante dizer “eu vi um fóton”

    Nossa visão é extremamente sensível, em verdade, é impossível que haja qualquer visão mais sensível, por não haver outras unidades de luz. O grau de captura das nuances do espectro, e a amplitude do espectro ao qual temos acesso, por outro lado, está obviamente delimitado pelo fato de sermos primatas e caçadores….

    Mas enfim, é sacanagem nos chamar de intermediários, se podemos captar a quantidade mínima de luz que existe no universo observável.

  • 2. Diego  |  May 7, 2008 at 5:16 am

    http://uk.youtube.com/watch?v=Hkv_30niM_A

  • 3. Jonatas  |  May 7, 2008 at 5:16 am

    Será que outros animais não podem perceber um único fóton tb? Somos intermediários em alguns aspectos de visão então. Mas é legal que nossa visão não está no limite do possível, e nossa experiência sensorial pode ser melhorada.

  • 4. Jonatas  |  May 7, 2008 at 4:14 pm

    http://uk.youtube.com/watch?v=eKPrGxB1Kzc

  • 5. Paralelo  |  May 17, 2008 at 1:00 am

    No ponto em que eu estou, duvido que algo capaz de “processar informação” não seja capaz de “ver”. Chuto que esta tamarutaca vê sim… aposto, além, que qualquer inseto com olhos vê.

    A consciência está alicerçada a certos tipos de processamento de informação, e não necessariamente são processamentos complexos. Sem dúvida somos conscientes de eventos que, cerebralmente, são bastante simples.

    Quanto às cores não dependerem de processamento complexo, é discutível. Os camundongos e o homem podem simplesmente compartilhar a complexidade necessária. O gene apenas acrescentou um detalhe, talvez.

  • 6. Jonatas  |  May 17, 2008 at 1:31 am

    É possível acrescentar um receptor a mais que o normal, de 3 para 4, e isso é acompanhado de uma melhora na visão colorida, nos humanos, então possivelmente se pode também acrescentar mais e mais, para 5, 6, … até se chegar a um resultado ótimo.

    Acho que animais pequenos e insetos não tem qualquer tipo de experiência consciente. Essa é a opinião do Dennett também. A experiência consciente envolve um mecanismo particular e dedicado a ela, é um processo sobre outro processo, e se limita à atenção. Talvez sequer exista consciência em muitos animais grandes, conforme há algumas evidências…

    Por exemplo, tirando de um livro do Dennett, tem uns chipanzés que lutam entre si, e ao final um deles morde e arranca os testículos do outro. Seria esperada uma dor agonizante, mas o chipanzé que sofreu isso não demonstra sinais de dor, ele lambe a ferida calmamente e segue com a vida.

  • 7. Paralelo  |  May 17, 2008 at 2:06 am

    Não vejo a menor relação entre “não ter reação de dor” e “não ser consciente”. Se ocorreu o equivalente físico da dor, então o macaco reagiria como tal – fosse ou não consciente disso.

    Mas ADOREI a idéia de que nós, com as alterações físicas corretas, poderíamos VER cores de matizes que, por hora, sequer podemos CONCEBER! Nem azul, nem roxo, nem amaralo, nem verde, nem vermelho… outra coisa!

    Ou pelo menos temos um belo teste: façamo-nos as mudanças equivalentes e observemos o resultado. Vemos cores novas? Se sim, ponto para o materialismo; se não, ponto para o dualismo. Pontos controversos, é verdade… deixo para a intuição do leitor a razão de eu dizer isso. Não faço a menor idéia, agora, se é óbvio ou não.

  • 8. fdfdfdfdff  |  March 29, 2009 at 9:40 am

    bicho é com “ch” e não com “X”.

  • 9. Jonatas  |  March 29, 2009 at 12:37 pm

    Como foi um artigo informal não conferi a escrita.. ;)

  • 10. Thiago Moura  |  April 15, 2009 at 7:54 pm

    Adorei seu texto.
    Ando pensando muito nesta coisa de dimensões e realidades diferentes. Engraçado… se percebemos as coisas do mundo de forma diferente, mesmo entre os da nossa própria espécie, percebemos a realidade de forma diferente. Sendo assim, cada um vive em um mundo e numa realidade bastante diferente do que vive o outro…
    Queria muito participar da evolução do home… estamos precisando… e de forma urgente!
    Quanto aos olhos… ainda tem espécie sem olho:
    http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI908114-EI299,00.html
    é um crutáceo.

    A tamarutaca é linda, hein: Super colorida! Elas devem utilizar os olhos super aguçados para se identificarm ou se comunicarem….

    Grande abraço!
    Obrigado.

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