Archive for June, 2008

Proposta de pleno emprego

O capitalismo me parece um meio excelente de distribuição da produção das pessoas. Os bens e serviços produzidos são escassos, não há de tudo para todos. A distribuição capitalista é livre, todos podem ter tudo, dependendo da escolha que fazem com o dinheiro que têm ou terão. Cada um ganha o correspondente em bens e serviços àquilo que produziu, o que estimula o trabalho e a inovação. Isso beneficia a todos de uma forma considerável, exceto aos mais pobres e miseráveis. Estes não se beneficiam do capitalismo. Se os desempregados e os mais pobres pudessem receber um auxílio garantido em troca de trabalho, o capitalismo seria bom para todos.

Talvez a ociosidade de parte da mão-de-obra seja necessária para a eficiência do sistema de mercado capitalista (já que ele exige contratações e demissões, sucessos e falências), no entanto, talvez essa mão-de-obra ociosa pudesse ser utilizada temporariamente em empregos pouco especializados e de baixa remuneração, fornecidos pelo governo ou por entidades, até que a pessoa encontre um emprego melhor. Isso daria um pouco mais de segurança à instabilidade de trabalho inerente ao sistema capitalista, e daria um aumento de produtividade considerável à economia da sociedade, sendo não uma alternativa ao capitalismo, mas um “curativo” a alguns problemas sociais existentes nesse sistema.

Pessoas incapacitadas de exercer trabalho não seriam classificadas como mão-de-obra ociosa, mas como dependentes ou inválidos, ainda podendo receber auxílios sem trabalhar, se for o caso (de que esse tipo de auxílio valha a pena).

Já que o simples auxílio aos pobres, não acompanhado de trabalho em troca, como o programa Bolsa-família, causa inflação, principalmente nos alimentos (que é o tipo de produto que tem um aumento de demanda por parte daqueles que usufruem desse auxílio), essa inflação poderia ser revertida a curto prazo se aqueles de baixa renda inseridos nesse programa trabalhassem para produzir alimentos. Esse sistema possivelmente levaria os pobres para o ambiente rural. Outra possibilidade é que a demanda pelos alimentos aumentará a longo prazo a produção existente, e assim as pessoas de baixa renda poderiam trabalhar em qualquer tipo de ocupação que fosse conveniente.

De toda forma, o trabalho feito por essas pessoas daria um retorno financeiro que baratearia enormemente os custos do programa, possibilitando a sua extensão para todas as pessoas que estejam temporariamente desempregadas e que desejem participar (o que seria a meta principal), e o aumento do valor monetário do auxílio. Isso talvez diminuiria a quantidade de miséria e de criminalidade no país.

Possivelmente, com este sistema, o custo da mão-de-obra de baixa qualificação subiria (já que os empregadores teriam menor demanda pelos empregos de baixa remuneração), o que poderia ocasionar alguma inflação, ao menos a curto prazo, no entanto, o preço da mão-de-obra no Brasil ainda é bastante pequeno comparado a outros países mais desenvolvidos, então não acho que seria um grande problema. Teorias mais recentes da relação entre inflação e desemprego confirmam essa suposição, de que, com o aumento do percentual de emprego, a inflação costuma ocorrer a curto prazo mas se estabiliza a longo prazo.

De um ponto de vista libertário, pagar este tipo de auxílio para os desempregados talvez não fizesse sentido, já que seria como um roubo do dinheiro do contribuinte com boa renda, direcionado para o desempregado, de forma que o desempregado de fato seja um prejuízo para o país, e um peso nos ombros dos membros mais produtivos da sociedade. No entanto, de um ponto de vista utilitário, importa o que causa um resultado mais positivo para todos em termos de felicidade, então este tipo de interferência poderia ser eticamente justificável, além do possível resultado de melhorar o ambiente social e diminuir problemas que afetam a todos.

Quanto ao Bolsa-família, tenho a impressão de que ele erra em distribuir auxílio para quem tem filhos — pobres não deveriam ter filhos, e não se deveria os incentivar a ter; quem deve ter filhos são aqueles com renda alta, que têm condições de os criar bem, para serem membros úteis à sociedade, ao invés de os criar mal, para serem prejuízo à sociedade como um todo (em vários aspectos). Talvez seria mais útil um programa que pagasse aos pobres para terem poucos filhos, ou ainda, como na China, os multasse ao terem muitos filhos. Novamente, isso seria errado de um ponto de vista libertário, mas talvez justificável de um ponto de vista utilitário.

Por enquanto esta proposta é apenas um esboço.

1 comment June 16, 2008

A mente e o corpo

O que gostaria de relatar são experiências relativas à influência da mente nas sensações corporais, e à influência das sensações corporais, por sua vez, nos estados mentais.

Eu comecei a me interessar em psicologia lendo um livro que comentava sobre abordagens diferentes de vários psicólogos. Entre essas abordagens, é relevante para esse relato a psicologia corporal, particularmente Wilhelm Reich.

Há uns cinco anos atrás eu comecei a aplicar suas idéias de que a tensão mental, e as patologias mentais, são de alguma forma traduzidas em tensão corporal, o aspecto corporal delas mantendo o aspecto mental, e vice-versa. Então tentei relaxar totalmente os músculos corporais, com o auxílio de respiração. É um processo muito difícil e demorado, e dificilmente eu conseguiria mais que relaxar um grupo particular de músculos.

Devo lembrar que todos adultos têm tensão muscular, decorrente de um nível mínimo de experiência psicológica, com possível exceção das crianças, e que um nível mínimo de tensão é necessário até para a postura e para manter o corpo de pé. Praticamente todas as pessoas adultas respiram de uma maneira tensa, e a tensão é a regra e não a excessão, embora ela atinja graus maiores com um maior nível de doença psicológica. A yoga tenta justamente mexer com isso e relaxar o corpo de uma maneira gradual e semelhante.

Em uma ocasião consegui relaxar os músculos do topo da cabeça, coisa que não consegui mais repetir desde então. O que senti foi uma mudança imediata de estado mental, um aumento de tranquilidade, espontaneidade e auto-confiança. Geralmente o relaxamento muscular me trouxe sensações parecidas com essas, que foram inéditas para mim até então, e semelhantes ao efeito do álcool e da maconha, mas sem efeitos adversos como declínio de capacidade cognitiva e de controle motor.

Em outras ocasiões consegui relaxar grupos musculares diferentes. Um dia tentei relaxar completamente os músculos faciais, levei uma hora ou algo assim até conseguir, e na hora seguinte aproveitei efeitos parecidos, principalmente um aumento de naturalidade e de criatividade, e uma sensação bastante boa.

Com o relaxamento do tórax consegui o relaxamento da respiração, o que seria semelhante à respiração abdominal ou diafragmática, uma respiração que flui livremente e sem esforço, acompanhada de um leve prazer corporal.

Uma vez ou outra, ainda nessa época, consegui relaxar moderadamente o corpo inteiro, de maneira a quase perder a sensação do corpo, me sentir “sem corpo”, livre e solto, o que veio acompanhado de uma sensação mental correspondente, de extrema tranquilidade e de prazer.

Outra vez, com um relaxamento semelhante, consegui uma significante alteração de personalidade, com um aumento de criatividade, de naturalidade e de confiança, como se eu voltasse a ser um “eu” que eu havia perdido há muitos anos atrás. Como sempre, isso durou por não mais que algumas horas. Eu estava no último ano da escola, na aula de matemática, e me senti especialmente capaz de resolver problemas.

Sabe-se que a depressão, por exemplo, diminui a habilidade matemática. Os diversos graus de patologia psicológica, maior ou menor, têm efeitos inesperados.

Nos anos seguintes eu tentei menos esse tipo de relaxamento, até porque é extremamente trabalhoso e os resultados são de curta duração. Acho que o método proposto pelos seguidores de Wilhelm Reich é combinar o relaxamento corporal com a terapia psicanalítica, para conseguir efeitos duradouros, isto é, tratar a origem mental das tensões para que elas não retornem em seguida. Embora eu desaprove da psicanálise como teoria, admito que ela possa trazer resultados práticos terapêuticos, mas questiono o quanto ela é eficaz comparado com outras possibilidades de terapia.

Acho que a tensão corporal e mental varia com os costumes culturais, de cultura para cultura, e varia com o grau de doença psicológica, atingindo graus maiores com transtorno de estresse pós-traumático, fobias, inibições, etc. Também costuma ser maior em alguns grupos de pessoas, como autistas, por motivos que eu desconheço, e costuma ser menor em negros, ao que me parece, tanto em termos mentais como corporais. Eu particularmente sofro de uma tensão corporal e mental bastante grande.

No final do ano passado, em um momento particularmente estressante da minha vida, eu tentei num dia esse tipo de relaxamento, particularmente do tórax e do quadril, e como sempre consegui um imediato aumento de espontaneidade, tranquilidade e criatividade que me impressionou bastante. No entanto, parece que nesse estado minhas defesas estão comprometidas, e estou mais aberto a frustrações.

Quando o efeito acaba, o aumento de tensão é sentido, e acompanhado de sentimentos mentais de sofrimento. Nesse dia, algumas horas depois, eu tive um aumento de ansiedade, e sensações corporais particulares. Tive palpitações e uma onda de frio bem localizado no peito, depois tive dor no peito e tontura, e muito medo. Achei que estava tendo um problema de saúde, talvez cardíaco, e fui para a emergência do hospital. Descobri mais tarde que tive um ataque de pânico, que causa esse tipo de sensação corporal e muito medo. Nos seis meses seguintes eu lutei contra a síndrome do pânico que havia se estabelecido, pois o ataque de pânico gerou uma fobia a novos ataques, e essa fobia retro-alimentava o pânico.

Esses foram provavelmente os piores meses da minha vida, foi um inferno em algumas ocasiões, e achei diversas vezes que iria morrer, mas aos poucos fui melhorando com o auxílio de terapia cognitivo-comportamental, que é um tipo de psicologia muito bom e relativamente científico, e que eu recomendo a todos. Faz cerca de um mês que estou melhor, e acho que superei o pânico. Tenho ainda algumas sensações de vez em quando, como dor no peito e tontura, mas quase nada.

Durante o meu pânico pude compreender como o estado mental pode influenciar o corpo a ponto de causar esse tipo de reações somáticas extremas, levando a uma reação cerebral de “luta ou fuga” quando um certo limiar de ansiedade é alcançado, e pude ver como as sensações têm o poder de influenciar a cognição, causando padrões de pensamento automáticos sobre os quais temos pouco controle, afinal eles são nós mesmos, e nós funcionamos fisicamente e temos causa e efeito. A extensão dos esquemas cognitivos adquiridos me levam a questionar o livre-arbítrio do corpo em si, e a encarar de uma maneira nova esse problema que eu já tinha como resolvido, mas creio que o arbítrio ainda exista de alguma maneira pequena.

Enfim, não tenho mais intenção de mexer com o relaxamento corporal por ver que ele pode ter consequencias perigosas. No entanto, me interesso em compreender o mecanismo como se dão essas interações entre o corpo e o cérebro ou o estado mental, e acho que, se bem compreendidas, podem dar origem a potenciais interessantes e possibilidades inovadoras de terapia.

Segundo Epícuro, outros filósofos antigos, e Schopenhauer, a ataraxia, ou a ausência de preocupações e de sofrimento, é o nosso grande objetivo, fazendo o caráter da felicidade e do prazer no corpo humano se dar de uma maneira um tanto negativa, como mera ausência de sofrimento e de preocupações, apesar de poder também ser positiva.

Add comment June 1, 2008


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