Consciência, redutível ou não?
A perspectiva do Dennett, monista, da consciência é pensar que a consciência pode ser “montada”, “construída”, uma máquina cria a consciência com as leis atuais, tem uma percepção e uma percepção da percepção, que é a consciência, de forma mecânica ou física.
O inverso, isto é, pensar que um tal processo como a consciência não possa se dar de forma “mecânica”, poderia ser como pensar que o arbítrio, ou livre-arbítrio, não pode ser compatível com as leis atuais da física, ou com o determinismo, e isso é falso, pois o arbítrio é produto dessas coisas. No entanto, o arbítrio parece um problema mais fácil de entender e explicar que a consciência… Talvez tenha se tornado assim (mais fácil) somente há pouco tempo, pelo nosso conhecimento de computadores, o que explicaria a surpreendente dificuldade que grandes pensadores do passado tiveram em entender o que acontece no arbítrio ou livre-arbítrio.
Já o Chalmers adota a mesma idéia que eu tive, de que a consciência seja uma propriedade irredutível porém natural ou física, de um novo monismo, ou um novo esquema de regras monistas, quero dizer, com uma propriedade fundamental a mais. No entanto, isso não é propriamente a consciência como experiência. Não sei como Chalmers pensa sobre isso, mas na minha opinião isso pode somente ser uma consciência como experienciador, ou protoconsciência (palavra que eu inventei), um experienciador (hard problem) que recebe a experiência (consciência, easy problem), essa experiência incluindo o pensamento sobre o pensamento, a experiência sobre a experiência, gerada toda mecanicamente pelo cérebro físico, então não sobra muito para essa protoconsciência fazer, embora talvez seja necessária para o fenômeno ser consciente e não inconsciente.
Se essa protoconsciência existir, provavelmente ela é uma panprotoconsciência (minha própria definição), isto é, ela existe abundantemente pelo universo, assim como as outras propriedades fundamentais da física, e não é criada de forma localizada no cérebro. Acho isso pois seria difícil uma coisa assim ser criada a partir da inexistência, não? As outras propriedades fundamentais da física são intermutáveis ou podem ser geradas umas pelas outras? A resposta a essa pergunta talvez diga se a protoconsciência criada localizada no cérebro é possível ou não. Me parece que ela é panprotoconsciência, até porque ela seria uma propriedade demasiadamente estranha se existisse no universo somente em cérebros evoluídos.
O que acontece após a morte para mim? Há uma eternidade de vazio inexperienciado (Nirvana), ou ainda há experiência de vida? A resposta a essa pergunta por parte do dualismo naturalista, ou monismo diferenciado (como eu prefiro chamar), parece ser apenas uma: enquanto houverem seres conscientes haverá experiência para mim, e não será possível o vazio inexperienciado ou Nirvana. Essa experiência não envolverá minhas memórias antigas ou minha personalidade (experiência), mas o mesmo tipo de protoconsciência que me constitui como “experienciador”, ou ainda, outros tokens do mesmo type da propriedade que eu chamo protoconsciência. Essa propriedade em si é desprovida de uma separação em múltiplos sujeitos, porque os sujeitos resultantes não fariam sentido.
E quanto à resposta para essa pergunta por parte do monismo de Dennett? Me parece que a resposta é a mesma (ainda há experiência; não há Nirvana), afinal o sujeito como indivíduo emergiria do universo como um todo, indivisível, e então poderíamos pensar que nós somos na verdade uma parte do universo, na verdade somos o universo, ou seja, o universo é aquilo que existe e não somos uma parte dissociada e particular dele. Somos uma parte dissociada e particular do universo enquanto sistema semi-fechado que é o corpo, enquanto pessoa, mas não na condição de existência da consciência. O que existe é o universo, e as novas consciências criadas por novos seres seriam experienciadas, nesse universo, após a morte de um ser particular. No entanto, eu sinto que me beneficiaria de pensar mais sobre o assunto deste parágrafo. Consciência é um problema sobre o qual se pensa aos poucos, e idéias novas surgem lentamente. Se resolver o problema da consciência fosse uma questão num teste de QI, seria um teste muito longo.
Se a resposta à pergunta, do que acontece após a morte para mim, for que não há uma eternidade de vazio inexperienciado (Nirvana), mas que ainda há experiência de vida, eu vejo diminuirem os motivos para desejar a imortalidade. Afinal, o desejo dela pareceria então um apego ao próprio corpo, à própria personalidade e às próprias memórias, e uma aversão a experiências novas. A imortalidade teria, ao menos no futuro próximo, aspectos positivos e negativos.
O estudo da fisiologia da atenção pode ajudar a resolver a questão da redutibilidade ou não da consciência, pois se a consciência é possível dentro das leis atuais (monismo de Dennett), então há que se explicar a diferença entre processos conscientes e inconscientes. É possível que a diferença seja o processo adicional que há nos conscientes, um pensamento sobre o pensamento, e isso seja tudo. No entanto, o que faria o pensamento sobre o pensamento ser consciente, e o pensamento simples ser inconsciente?
5 comments May 15, 2008
Visão
Um estudo científico com camundongos, que normalmente têm receptores visuais apenas para azul e verde, demonstrou ser possível os fazer ver também o vermelho, tornando sua visão de cores equivalente à humana, por meio da mera inserção de um gene humano. Isso mostra que um gene sozinho é capaz de alterar a percepção de cores, sem precisar de uma evolução cerebral – a mudança de percepção de cores foi praticamente instantânea, mostrando a flexibilidade do cérebro.
A visão humana se dá por meio do aparelho visual humano, que inclue os olhos e o processamento cerebral da visão. A qualidade dessa visão é principalmente devida aos olhos em si, isto é, não tanto ao processamento cerebral. Há animais de cérebro menor que o nosso e de visão superior.
A qualidade da visão abrange aspectos como precisão e resolução (o quanto se pode enxergar detalhes e coisas distantes), campo de visão periférica (o quanto se pode ver coisas ao seu redor ou só à sua frente – no caso dos humanos, 120 graus), percepção de movimento (o quanto uma mudança no campo visual chama a atenção), percepção de profundidade (o quão bem os olhos avaliam a distância em 3D) e percepção de cores (a visão humana percebe uma faixa de comprimento de onda de mais ou menos 400 a 700 nm, no espectro de cores).
Quanto a cores, há variabilidade entre pessoas, determinada geneticamente. Normalmente as pessoas têm nos olhos 3 receptores de cor, chamados cones, correspondentes a azul, verde e vermelho, com leve variação individual na tonalidade captada por esses receptores. Algumas pessoas, no entanto, têm 4 receptores, e conseguem uma visão superior de cores. Esse receptor extra é dado por um gene que só se manifesta em mulheres, muito raramente, e é inativo nos homens portadores (provavelmente está no cromossomo X, exigindo duas cópias para se manifestar, suposição minha). Essas mulheres com 4 receptores conseguem distinguir melhor entre tonalidades de cores e provavelmente têm uma experiência subjetiva de visão mais rica, e inexplicável para humanos normais.
Há também uma quantidade significativa de pessoas com visão de cores diminuída, predominantemente homens. Há pessoas com apenas 2 receptores de cores, que enxergam, por exemplo, apenas tons de vermelho e verde, e há ainda algumas pessoas com visão sem distinção de cor, como em preto e branco. A maior ou menor quantidade de receptores de cor é determinada geneticamente, pelos genes dos pais.
Comparada à dos animais, a nossa visão é talvez intermediária. Há muitos animais com visão superior, seja em um aspecto ou em outro. A águia tem uma visão de precisão e resolução maior, conseguindo enxergar melhor coisas distantes e detalhes do que nós, mesmo com um cérebro relativamente pequeno. Provavelmente a qualidade da visão de cada animal é resultado das exigências evolutivas, e se essas exigências não foram rígidas o bastante no caso dos humanos, é compreensível que a nossa visão não tenha se tornado tão boa.
Há um animal, no entanto, para o qual as pressões evolutivas para a visão parecem ter sido especialmente fortes. A tamarutaca (mantis shrimp, foto) é um bixo semelhante a uma lagosta, que vive no fundo do oceano e tem um corpo de mais ou menos 30cm.
Enquanto que os humanos têm normalmente 3 receptores para visão colorida, ela tem 12 ou mais receptores, algumas espécies chegando a 16, conferindo uma visão hiper-espectral, incluindo infravermelho e ultra-violeta, passando por tonalidades inimagináveis. Enquanto nós temos uma percepção de profundidade binocular numa faixa estreita à nossa frente, a tamarutaca tem visão trinocular que percebe toda a sua circunferência. Seus olhos são considerados os mais complexos do reino animal.
É provável que, devido ao tamanho do seu cérebro, a tamarutaca não tenha consciência, isto é, seja um mero robô natural, e não possa conscientemente apreciar toda a sua riqueza visual. Talvez algum dia pós humanos possam descobrir como é a sua visão. Dado um criador inteligente, pós humanos poderiam ter uma visão ainda superior à da tamarutaca (mantis shrimp), e talvez então a nossa experiência sensorial de agora seja como um filme em preto e branco em comparação.
10 comments May 7, 2008
Saúde e nutrição
Não sou de forma alguma um especialista em nutrição, no entanto, coletei ao longo de um tempo informações sobre coisas benéficas à saúde, boa parte embasadas em estudos científicos:
- Um estudo que deu as seguintes recomendações de dieta reduziu a mortalidade de doentes cardíacos em 70% comparado ao grupo controle:
* mais pão, mais vegetais de raíz e vegetais verdes, mais peixe
* menos carne de gado, de ovelha e de porco (substituído por aves)
* nenhum dia sem frutas
* manteiga e creme substituídos por margarina com ômega 3
O estudo dos EUA usou margarina em vez de, por exemplo, óleo de oliva, por ser mais fácil de convencer as pessoas a usar.
- Óleo de oliva extra-virgem é benéfico à saúde, por melhorar a elasticidade do sistema circulatório, ter colesterol bom (HDL), etc. No entanto, grande porcentagem dos óleos de oliva, principalmente os baratos, e procedentes da Itália, são adulterados. O consumo de óleo de oliva, para ser benéfico, deve ser apenas em quantidade comparável à de gordura saturada consumida, cerca de 2 colheres por dia e não mais. É importante que o óleo seja extra-virgem, que não pode ter uma porcentagem de acidez maior que 0.8%. Óleos de oliva comuns não são benéficos. É difícil detectar óleo extra-virgem adulterado, e uma das características importantes que definem o extra-virgem é o gosto forte e superior. Ele deve ser da primeira prensa a frio, mas não há como saber se isso é verdade somente pelo rótulo. Os óleos bem mais caros, premium, têm mais chance de serem autênticos, mas a adulteração é muito comum.
- Consumir pão e arroz integrais faz bem à saúde. Talvez seja bom evitar alimentos com alto índice glicêmico, como arroz e pão brancos, batatas, etc., para diminuir o desgaste do sistema cardiovascular e diminuir o nível de triglicerídeos no sangue. Aumentar a quantidade ingerida de frutas e verduras parece seguramente uma boa escolha.
- Consumo excessivo de vitamina E por meio de suplementos foi mostrado em um estudo aumentar levemente o risco de câncer. As vitaminas A, D e E são liposolúveis e não solúveis em água, e tendem a se acumular mais no organismo. Vitaminas em suplementos não têm necessariamente os mesmos benefícios de vitaminas naturais, por serem muitas vezes provenientes de substâncias sintéticas, desprovidas de substâncias adicionais, presentes nos alimentos, que poderiam ter a ver com a absorção dessas vitaminas.
- Nozes possuem ômega-3, zinco, etc. ajudam no bom funcionamento cerebral, produção de serotonina, absorção de vitaminas B, protegem as artérias e o funcionamento cardiovascular, possuem gorduras essenciais que ajudam a controlar a hipertensão.
- Peixes são normalmente apontados como bastante saudáveis, mas podem conter traços de metais pesados como o mercúrio (?).
- O consumo de chocolate, principalmente aquele com grande porcentagem de cacau (algo muito raro nos chocolates brasileiros), foi correlacionado com maior expectativa de vida. O cacau em si possui substâncias com propriedades altamente benéficas em vários sentidos, no entanto o chocolate processado costuma perder a maioria dessas substâncias.
- Dez nutrientes que poderiam potencializar a atividade cerebral:
* Inositol – Essa substância é formada na flora intestinal a partir do ácido fítico, presente nas fibras alimentares. O inositol está nas frutas, nos alimentos integrais, no levedo de cerveja e nas nozes.
* Gorduras tipo ômega 3 – Um estudo científico sobre a expectativa de vida em diversos países apontou que ela é elevada em países que são grandes consumidores de peixe. O consumo de ômega-3 diminui os níveis de triglicerídeos e colesterol, e protege o sistema cardiovascular. Esse tipo de gordura está presente na sardinha, no atum, na cavala, no arenque, na truta, no salmão, na semente de linhaça e nas nozes.
* Tiamina (vitamina B1) – A deficiência dela leva a quadros de fadiga, alteração de apetite, confusão mental, diminuição de memória, instabilidade emocional, diminuição de concentração e irritabilidade. A tiamina está nos cereais integrais, no levedo de cerveja, nas leguminosas, na laranja e na semente de girassol.
* Cálcio – Em alguns processos, como na formação da memória, o cálcio tem uma atuação complementar. As principais fontes são o leite, o gergelim, as folhas verdes (exceto o espinafre), os peixes e o iogurte. É importante observar possíveis intolerâncias a laticínios.
* Vanádio – Assim como o cromo, trata-se de um mineral fundamental para promover a metabolização da glicose. O funcionamento cerebral é prejudicado quando há falta deles. O vanádio pode ser encontrado na azeitona, nos frutos do mar e nos alimentos integrais.
* Colina – Outra vitamina do complexo B. É essencial na formação da acetilcolina, neurotransmissor fundamental para a preservação da memória e da capacidade cognitiva. Estudos apontam correlação com a prevenção de Alzheimer. Ovos e leguminosas são fontes de colina
* Ácido fólico – Uma das vitaminas do complexo B, promove o aumento dos plasmógenos nas células. É um agente de prevenção para os problemas neurodegenerativos, e diminui a pressão arterial. Está presente nas folhas verdes, no levedo de cerveja, nas leguminosas (feijões, lentilha, ervilha, grão de bico, soja), no trigo sarraceno, nas castanhas, nas amêndoas e no abacate.
* Magnésio – Tem função similar à do cálcio e pode ser consumido nas folhas verdes, em oleaginosas (castanhas, nozes, pecan, avelã, pistache, amêndoas e macadâmia), na semente de girassol, no gergelim, na abóbora, na linhaça e nos cereais integrais
* Manganês – Participa como coenzima de várias enzimas importantes e está envolvido nos processos de controle de glicose sangüínea, metabolismo energético e função tireoidiana. Há manganês nos cereais integrais, no chá-verde, no chá-preto, no banchá, nos brotos – principalmente de alfafa -, no abacaxi e nas oleaginosas.
* Piridoxina (vitamina B6) – Fundamental na formação de proteínas, neurotransmissores e prostaglandinas. Pode ser encontrada em alimentos como a banana, a batata-doce, o feijão, o melado de cana, o germe de trigo, as castanhas, a lentilha, o levedo de cerveja e o abacate.
- O consumo de abacate ajuda a regenerar o fígado.
- O consumo de álcool em grandes doses é bastante prejudicial à saúde. O consumo de álcool em quantidades moderadas (mais ou menos 1-3 cálices de vinho por dia, um pouco mais para a cerveja) é benéfico em vários sentidos: vários estudos mostraram que o consumo moderado de álcool melhorou a habilidade cognitiva (ao menos em termos de memória, concentração, associações e inteligência verbal) e diminuiu a chance de problemas cardíacos comparado à abstinência. Pessoas com consumo moderado de álcool tiveram uma chance 2,5 vezes maior de receber os mais altos scores de habilidade cognitiva que abstinentes. O consumo moderado de álcool também está relacionado com menor risco de demências e Alzheimer. Os mecanismos pelos quais a melhora cognitiva se dá no consumo moderado de álcool não estão bem claros para mim – pelos efeitos destruidores do álcool, seria esperado o oposto, uma diminuição da massa cerebral em geral. Parece que o álcool causa uma diminuição da massa cinzenta e não da massa branca, aumentando a proporção de massa branca relativa à massa cinzenta. É possível que esteja em jogo um tipo de destruição e renovação de células. É verdade também que o álcool em doses baixas é um estimulante. Há uma regeneração neuronal que ocorre em um certo tempo após a abstinência do consumo pesado de álcool, mas isso diz pouco sobre o consumo moderado. Os efeitos benéficos do consumo moderado de álcool parecem se dar independentemente do tipo de bebida alcoólica, embora possam haver efeitos específicos adicionais para cada tipo de bebida. O vinho possui propriedades anti-oxidantes, e a cerveja possui vários nutrientes.
- É bom consumir bastante líquidos, mas não exagerar. 2 litros ou 8 copos diários está bom, um pouco mais quando houver transpiração excessiva devido a exercícios. Consumir líquidos excessivamente pode sobrecarregar os rins e o coração.
- O exercício regular (principalmente aeróbico) traz várias vantagens, como manutenção do peso, melhora do sistema imunológico, manutenção dos ossos e dos músculos, prevenção de doenças como hipertensão, cardiopatias, diabetes, insônia e depressão. Estudos mostram que o exercício melhora a aprendizagem espacial pelo hipocampo, a neuroplasticidade e a neurogênese, além de ser neuro-protetor em um número de doenças neurodegenerativas e neuromusculares. O exercício também aumenta a quantidade de neurotransmissores como dopamina, glutamato, noradrenalina (talvez aumentando o potencial para ansiedade?), e serotonina, melhora a eficiência do coração e aumenta o suprimento de oxigênio ao cérebro. O exercício excessivo quando não há preparação suficiente pode ser perigoso, e o exercício extremo pode ter consequências negativas à saúde. Deve-se exercitar preferencialmente umas 3 vezes por semana, de acordo com a preparação física.
Quanto a esses estudos, é preciso lembrar que correlação não implica causalidade. É também verdade que, em termos de qualidade de vida, é preciso pesar o valor da saúde versus o da satisfação em comer ou fazer o que desejar.
1 comment May 6, 2008
Pensamento vs. leitura
Da leitura não é incomum se assimilar idéias teóricas com pouca reflexão e crítica. Esses conceitos assimilados são frequentemente tidos como fatos e, se não houver muito cuidado, serão frequentemente errados.
Pensar as idéias de maneira própria é melhor que assimilar idéias erradas com pouca reflexão. Mesmo a ignorância pode ser melhor que uma idéia falha. A ignorância, quando confrontada com o problema, leva à cautela ou ao pensamento próprio.
A idéia vinda da leitura deve servir como uma hipótese, mas seria melhor pensar ela de maneira própria para confirmar sua integridade. Isto é, seria melhor pensar o problema sem considerar a princípio que a solução é essa idéia, para que ela não afete a qualidade do pensamento. Isso vale mais para idéias teóricas e mais passivas de erro, e menos para fatos científicos e pouco passivos de erro.
A leitura de fatos científicos é beneficial, no que permite o aumento do conhecimento confiável em cima do qual se pode formular pensamentos e conclusões próprios.
O caractere chinês para “leitura” (読) é formado pela junção dos caracteres “fala” (言) e “vender” (売). De certa forma, quem lê vende sua própria fala, e põe no lugar a fala da leitura. Temos preguiça de pensar por conta própria, é mais fácil usar uma explicação pronta, se já a tivermos, e assim poupamos o nosso pensamento. Quantos exemplos não há em que isso ocorre?
Não deixe os outros fazerem o trabalho de pensar por você.
Add comment May 4, 2008
Direitos de seres e máquinas
O que distingue o organismo, ser ou máquina, juridicamente significante é a consciência, e a significância é dada pelo grau de consciência e pelo grau de inteligência. Um organismo sem consciência, mesmo inteligente, é um objeto, e não tem direitos, apesar de poder ter utilidade e importância. Se existe consciência mas a inteligência é baixa, pode ser necessário diminuir sua liberdade, e tomar decisões por ele, mas não é mais um objeto, adquire importância pela capacidade de ter sentimentos negativos e positivos, adquire certos direitos.
Um ser consciente e inteligente o bastante pode ter maior autonomia, liberdade e deveres, além de direitos. A autonomia, a liberdade, os deveres, e parte dos direitos são pensados em função da inteligência; outra parte dos direitos é pensada em função da consciência.
2 comments May 4, 2008
Linguagem, conceitos e analogias
Linguagem envolve formar conceitos ou palavras, isto é, conjuntos que abrangem um número de padrões de percepção sensorial, seja o estímulo sensorial externo ou interno.
Por exemplo, o conceito “andar” é um conjunto que abrange um grupo de padrões de percepção sensorial, de qualquer pessoa ou certos tipos de animal mexendo suas pernas de uma tal maneira e se movimentando a uma tal velocidade.
A compreensão do conceito “andar” se dá pela associação ou analogia entre esses padrões de percepção sensorial e o uso da palavra na linguagem.
Os conceitos em si e as analogias podem se dar de forma independente da linguagem. Assim, nós podemos conhecer bem uma pessoa, e ter um conceito mental único para ela, mesmo se não soubermos o seu nome; mesmo que uma palavra, sonora, visual, ou escrita (movimento manual), não esteja associada a esse conjunto conceitual, ou que não consigamos lembrar dessa palavra, do nome da pessoa.
A criança forma sua linguagem pela analogia das palavras ouvidas com os conceitos que são conjuntos de padrões de percepção sensorial reconhecidos (os estímulos sensoriais podem ser vindos do meio interno, do próprio cérebro, ou do meio externo, do ambiente). Os conceitos em si podem influenciar a parte linguística da pessoa, e serem, inversamente, influenciados pela linguagem exterior.
Se um computador fosse se tornar fluente na linguagem humana, talvez precisasse ter padrões de percepção sensorial e ser capaz de formar analogias de maneira similar aos humanos.
Ao aprender uma língua nova, ou se associa as palavras da língua nova aos conceitos (conjuntos de padrões de percepção sensorial) da forma como existem e são usados nessa língua, ou se tenta associar as palavras dessa língua aos conceitos (conjuntos de padrões de percepção sensorial) existentes, correspondentes às palavras de uma língua materna.
Pode haver mais ou menos rigidez ou flexibilidade nos conceitos, de forma que eles correspondam a (sejam conjuntos de) padrões de percepção sensorial mais ou menos delimitados e específicos. Podem haver conceitos separados para azul e verde, ou um único conceito para as duas cores. O primeiro é um conceito mais específico, e o segundo mais abrangente.
Para poder usar a linguagem é necessário o uso de analogias, que é relacionar um conceito a outros. Isso pode incluir ver de que forma eles são comuns ou de que forma eles são distintos. Fora o ser humano, os animais são notoriamente limitados quanto à capacidade de aplicar um conhecimento antigo a uma situação nova, que é um processo que, ao que me parece no momento, envolve a consciência, não é feito “automaticamente” pelo inconsciente, mas precisa de pensamento voluntário e atento.
No entanto, uma forma de analogia é comum aos animais e aos humanos, o dito condicionamento psicológico. Temos uma experiência boa, então é criada uma analogia entre o que ocorreu antes e a recompensa depois, e o comportamento é reforçado no futuro. Inversamente, uma experiência ruim é guardada na memória com uma analogia ruim, e o comportamento é evitado. Isso funciona a graus variados de positividade e negatividade, tanto nos animais como nos humanos e é parte importante do comportamento. Isso é aplicar um conhecimento antigo a uma situação antiga, ou a uma situação algo parecida com a antiga, e é um processo percebido mais ou menos como automático para a consciência, ou seja, ele não passa pelo filtro da consciência para se manifestar, é um tanto inconsciente e involuntário. Isso pode inspirar idéias sobre a natureza da consciência dos outros animais.
Aplicar um conhecimento antigo a uma situação nova (diferente) parece ser um aspecto importante da inteligência. Dessa forma, se testes de QI medem a capacidade de fazer certos tipos de analogia com conceitos novos, eles medem uma parte da inteligência. Podem falhar, talvez, em medir outras partes.
1 comment May 4, 2008